
A Fórmula 3, principal categoria de formação nos principais pólos de automobilismo de competição no mundo, como a Europa, há tempos pode ser considerada mais do que uma categoria escola.
O desenvolvimento constante dos carros, as evoluções dos motores, a complexidade dos acertos aerodinâmicos e mecânicos fizeram com que, nos últimos anos, a categoria mundialmente ganhasse contornos de competição de alto nível.
São muitos os pilotos campeões de Fórmula 1 que passaram pela F3 em seus países ou em campeonatos continentais: Michael Schumacher, Alain Prost, Ayrton Senna, Nelson Piquet, Nigel Mansel, Mika Hakkinen, Jacques Villeneuve, Damon Hill, além de uma lista incontável de bons pilotos que não foram campeões, mas que se destacaram e se destacam na mais conceituada categoria do mundo.
Atualmente são 12 campeonatos nacionais e continentais de F3 homologados pela FIA, agregando mais de 250 pilotos promissores: uma nova geração que se forma.
História mostra que a categoria é a maior formadora de pilotos da América do Sul. E o Brasil foi seu maior beneficiado
A rodada dupla que o Campeonato Sul-Americano de Fórmula 3 realizou nos dias 25 e 26 de novembro de 2006, em Interlagos, encerrou a 20ª temporada da categoria no continente. Neste período, a F-3 revelou e formou diversos nomes que fizeram história no automobilismo mundial, firmando-se como o maior celeiro de pilotos de alto nível da América do Sul.
A temporada de estréia foi disputada em 1987, já com o primeiro título de um piloto brasileiro: o talentoso gaúcho Leonel Friedrich surpreendeu a bordo de um chassi Berta Mk III equipado com motor VW. Mas foi uma vitória binacional, já que Friedrich era piloto da competente equipe Argentina INI Competición.
A primeira corrida aconteceu no autódromo de Cascavel, no Paraná, já com a marca da rivalidade que se veria nos próximos anos: a pole do igualmente talentoso argentino Guillermo Maldonado (Berta MkIII/VW) não foi convertida em vitória, façanha que ficou com o arrojado brasileiro Friedrich. Foi um resultado importante já inicialmente, pois Maldonado vinha de quatro títulos da Fórmula 2, categoria que foi extinta para a instalação da Fórmula 3 no continente. “Países com maior tradição no esporte, Brasil e Argentina realmente dominaram o cenário da F-3, com duelos e corridas antológicas”, lembra Dárcio dos Santos, único piloto que competiu nos primeiros anos da F-3 que ainda atua na categoria. Estreante como piloto em 1989, Dárcio atualmente dirige a equipe Prop Car, campeã em 1997 com o mineiro Bruno Junqueira.
“Nos primeiros anos, havia uma indiscutível vantagem das equipes argentinas, que vinham da extinta Fórmula 2 e por isso possuíam um conhecimento técnico e experiência muito maiores”, conta Dárcio. “Assim, parte dos títulos brasileiros foram conseguidos com carros preparados do outro lado da fronteira. E isso era fantástico, muito bom para o esporte. Hoje, as equipes brasileiras cresceram muito e dominam a F-3”.
Grandes craques – A rivalidade perdurou por vários anos, assim como os duelos antológicos. Circuitos famosos como Interlagos e Buenos Aires tiveram arquibancadas lotadas muitas vezes para ver as novas gerações brasileiras encarar os craques argentinos. Os dois países dividiram vitórias e títulos, mas um nome merece destaque.
O argentino Nestor Furlán permaneceu na categoria por vários anos, tornando-se o maior piloto da história da F-3. Depois de tentar carreira na Europa e retornar por falta de patrocínio, Furlán estabeleceu-se na categoria continental, enquanto jovens pilotos chegavam e partiam para a Europa ou os Estados Unidos. Experiente, técnico e cheio de truques inteligentes, o argentino ditou o nível da competição – altíssimo – sendo um parâmetro, uma espécie de Schumacher, para quem chegava. Com quatro títulos de campeão sul-americano de F-3, Furlán atualmente é destaque na TC2000, a Stock Car da Argentina.
Já na primeira temporada, a F-3 atraiu pilotos de dez países diferentes, incluindo alguns não sul-americanos, casos de nomes conhecidos como o australiano David Brabham e o italiano Enrico Bertaggia. Era uma época na qual o Brasil contava, na F-3, com pilotos de talento já reconhecido por seu sucesso em outras categorias, casos de Marcos Troncon, Artur Bragantini, Egon Hertzfeld, entre vários outros.
Legado – Em 20 anos de história, a F-3 Sul-Americana ofereceu aos pilotos do continente a oportunidade de aprender a lidar com sofisticadas regulagens de chassi, freios de grande eficiência, pneus que exigem técnica de pilotagem acurada, motores potentes, rivais difíceis de dominar e equipes que replicam o ambiente profissional e a estrutura de trabalho encontrados na Europa e Estados Unidos. Foi a escola perfeita para muitos que fizeram nome e fortuna no esporte – e o Brasil foi o grande beneficiado nesta que é a principal formadora de pilotos situada fora do automobilismo europeu.
Os nomes que disputaram títulos ou que simplesmente competiram na categoria para aprimorar sua técnica formam na verdade uma lista quase completa dos melhores jovens pilotos que o Brasil produziu nas últimas décadas: Cristiano da Matta, Hélio Castroneves, Affonso Giaffone Neto, Christian Fittipaldi, Tarso Marques, Hoover Orsi, Bruno Junqueira, Jaime Melo Júnior, Rubens Barrichello, Nelsinho Piquet, Max Wilson, Vitor Meira, Ricardo Zonta, Osvaldo Negri Júnior e muitos outros. Juntos, eles conquistaram uma quantidade impressionante de títulos internacionais, muitos deles de primeiríssima linha, caso dos títulos na F-3000, Fórmula Mundial, 500 Milhas de Indianápolis e FIA GT. Sua chegada ou não à F-1 dependeu de diversos fatores e obstáculos de carreira que o automobilismo oferece. Mas, sem dúvida, boa parte do talento que mais tarde construiu o sucesso destes pilotos foi forjada ao volante dos F-3 sul-americanos.
Sem dúvida o grande atrativo da F3 Sudamericana são seus carros: bólidos construídos e impulsionados com o que há de mais eficiente do mundo das competições de automóveis.
A receita começa com um bom projeto de chassis. A F3 Sudamericana usa em todos os seus carros chassis da italiana Dallara, de fibra de carbono, reconhecidos mundialmente como os chassis de série para competições mais modernos e bem construídos. Além de segurança para os pilotos, as performances são cada vez mais impressionantes de acordo com a evolução dos acertos e desenvolvimento dos chassis feitos equipe por equipe.
Os pneus, Pirelli de competição são outro fator que levam os carros ao limite e garantem um espetáculo único no continente.
Mas o ingrediente principal do carro é o motor. Impulsionados por um Berta F3Sudam, os carros da F3 Sudamericana vêm surpreendendo todo o mundo com o desempenho e velocidade alcançadas em seus autódromos.
Originados dos motores Ford Duratec 2.3 totalmente construídos em alumínio, os Berta F3Sudam são desenvolvidos na Argentina por Orestes Berta e sua equipe, que alteram e adaptam partes e reprogramam a injeção, criando potentes máquinas de 255Hp (2,1kg/hp) que empurram carros de pouco mais de 500kg, fazendo com que a F3 tenha a maior potência e a melhor relação peso-potência das categorias de base do automobilismo mundial, com exceção da GP2, superando inclusive a conceituada F3 Européia.
Essa configuração dos Berta F3Sudam tem permitido a quebra de recordes de velocidade em autódromos no Brasil e na Argentina, o que tem surpreendido o mundo da velocidade. Em 2006, no circuito de Rafaella, na Argentina, os carros atingiram marcas superiores a 270km/h, recorde mundial em categorias similares.
Fonte:
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Atualizado em: 29.01.2008